Novas regras sobre direito de família e reflexos nas empresas familiares: Implicações das mudanças no Código Civil para sucessão e gestão

14 . JANEIRO . 2025

| Direito Contratual

As empresas familiares representam uma parcela significativa da economia brasileira, e o alinhamento entre o Direito de Família e a gestão empresarial é crucial para garantir a continuidade dos negócios. As recentes alterações no Código Civil introduziram mudanças no regime do Direito de Família que impactam diretamente a sucessão e a gestão dessas empresas, exigindo planejamento cuidadoso por parte dos empresários.

Neste texto, vamos explorar como as atualizações no Código Civil afetam as empresas familiares, abordando as implicações para a sucessão dos bens, a gestão da empresa e as relações familiares que interferem na condução dos negócios.

1. Planejamento sucessório e a proteção do patrimônio

Uma das principais mudanças trazidas pelo novo Código Civil está na facilitação do planejamento sucessório. Para as empresas familiares, essa questão é essencial, pois a transferência de patrimônio de uma geração para outra precisa ser realizada de maneira eficiente e segura, a fim de preservar o valor dos ativos e evitar disputas entre herdeiros.

As novas regras do Código Civil incentivam o uso de mecanismos como holdings familiares e doações em vida com reserva de usufruto, que permitem ao fundador da empresa transferir parte de suas ações ou cotas aos herdeiros, sem perder o controle da gestão durante sua vida. Esse tipo de estrutura evita a fragmentação do patrimônio e garante que a empresa possa continuar operando de maneira coesa, mesmo com a sucessão.

Além disso, o Código Civil permite maior flexibilidade na divisão de bens, possibilitando que o empresário determine, por meio de testamento ou acordos familiares, a maneira mais adequada para distribuir a participação societária entre os herdeiros.

2. Impacto dos regimes de casamento na empresa familiar

Outro aspecto relevante para as empresas familiares é a escolha do regime de casamento dos sócios e gestores. O novo Código Civil reforça as implicações jurídicas dos regimes de comunhão de bens, separação de bens e participação final nos aquestos, afetando diretamente o patrimônio empresarial em caso de dissolução da sociedade conjugal.

Nas empresas familiares, é fundamental que os sócios estejam atentos ao impacto que o regime de bens pode ter sobre a participação societária. No regime de comunhão parcial de bens, por exemplo, as cotas adquiridas após o casamento podem ser incluídas na partilha em caso de divórcio, o que pode gerar conflitos e comprometer a estabilidade da empresa. Para evitar essa situação, muitos empresários optam pelo regime de separação total de bens, que assegura que a participação na empresa familiar seja excluída da divisão de bens entre os cônjuges.

As alterações no Código Civil também permitiram que os sócios e herdeiros estabeleçam acordos pré-nupciais mais detalhados, garantindo maior clareza sobre a destinação das cotas empresariais em caso de divórcio ou falecimento.

3. Direito de herança e gestão da empresa

Com as mudanças no Código Civil, o direito de herança passou a ter uma abordagem mais flexível em relação à transmissão de bens empresariais. Agora, o fundador de uma empresa familiar pode definir com mais liberdade quem será o sucessor na administração dos negócios, independentemente da divisão patrimonial entre os herdeiros.

O Código Civil permite que o empresário estabeleça que apenas alguns herdeiros assumirão o controle da gestão, enquanto outros poderão receber apenas os lucros ou dividendos correspondentes às suas cotas. Esse tipo de separação entre propriedade e gestão é uma ferramenta fundamental para preservar a continuidade dos negócios, evitando que herdeiros sem experiência ou interesse em administrar a empresa acabem comprometendo sua performance.

Essa nova abordagem também favorece a criação de estruturas de governança, como conselhos familiares e comitês de administração, que podem ajudar na tomada de decisões estratégicas e garantir uma transição mais tranquila entre gerações.

4. Cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade

Outra mudança importante introduzida pelo Código Civil é a possibilidade de inclusão de cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade em doações e testamentos. Para as empresas familiares, isso significa que o fundador pode, em vida, determinar que as cotas empresariais não sejam vendidas ou penhoradas pelos herdeiros, garantindo que o controle da empresa permaneça dentro da família.

Essa medida é especialmente útil para evitar que a entrada de terceiros no quadro societário ou a alienação de cotas comprometa a estratégia de longo prazo da empresa. No entanto, é fundamental que tais cláusulas sejam estabelecidas de forma clara e com o auxílio de um advogado especializado, para evitar conflitos futuros entre os herdeiros.

5. Acordos familiares e resolução de conflitos

As novas regras do Código Civil também incentivam a utilização de acordos familiares para regular as relações entre os herdeiros e sócios da empresa. Esses acordos podem incluir diretrizes sobre a sucessão, a gestão do patrimônio e a participação de familiares nas decisões estratégicas, criando um ambiente mais harmônico e transparente.

Para evitar litígios e disputas entre herdeiros, muitas empresas familiares têm adotado mecanismos alternativos de resolução de conflitos, como a mediação e a arbitragem, que agora são incentivados pelo Código Civil. Esses mecanismos oferecem uma forma mais ágil e menos onerosa de resolver disputas, preservando a unidade familiar e a continuidade dos negócios.

6. O papel da governança corporativa em empresas familiares

As mudanças no Código Civil também reforçaram a importância da governança corporativa em empresas familiares. Com a profissionalização da gestão, a criação de conselhos de administração e a separação entre propriedade e gestão, as empresas podem minimizar o impacto das questões familiares nas decisões empresariais.

A adoção de boas práticas de governança, como a transparência na gestão e a prestação de contas aos sócios, é fundamental para assegurar que a empresa continue crescendo de forma sustentável, mesmo em cenários de transição familiar. Além disso, as novas regras incentivam a inclusão de cláusulas de governança nos contratos sociais e estatutos, garantindo que a sucessão ocorra de forma estruturada e planejada.

Conclusão

As recentes alterações no Código Civil introduziram importantes mudanças no Direito de Família, que impactam diretamente a sucessão e a gestão em empresas familiares. Com maior flexibilidade no planejamento sucessório, maior proteção patrimonial e a possibilidade de personalizar a transição de controle, os empresários podem garantir a continuidade de seus negócios de forma segura e eficiente.

A implementação de acordos familiares, a adoção de mecanismos de governança e o cuidado na escolha do regime de casamento são medidas essenciais para evitar conflitos e preservar o valor da empresa para as próximas gerações. Para isso, é fundamental contar com uma assessoria jurídica especializada, que possa orientar a família empresária sobre as melhores práticas e garantir que todas as disposições legais sejam atendidas.